Portugués

HUGO MUJICA nasceu em Buenos Aires em 1942. Estudou belas-artes, filosofia, antropologia e teologia. Essa diversidade de estudos é refletida na variação da sua obra que abrange tanto a filosofia, quanto a antropologia, a narrativa, a mística e sobretudo a poesia.

Dentre seus principais livros de ensaios são de destacar “Origen y destino (1987),” (1992), “La palabra inicial” (1995), “Flecha en la niebla” (1997), “Poéticas del vacío” (2002), “Lo naciente” (2007), “La casa y otros ensayos” (2008), “La pasión según Georg Trakl” (2009), “El saber del no saberse” (2014) e “Dioniso. Eros creador y mística pagana” (2016). “Solemne y mesurado” (1990) e “Bajo toda la lluvia del mundo” (2008), são seus dois livros de contos.

A sua obra poetica, inciada em 1983, tem sido editada na Argentina, España, Italia, França, México, Estados Unidos, Chile, Uruguay, Costa Rica, Bolivia, Colômbia, Venezuela, Guatemala, Eslovénia, Rumania, Grécia, Israel, Inglaterra e Bulgária. Em 2014 Vaso Roto publicou “Del crear y lo creado”, 3 volumes quase todos os seus ensaios e poesia. Seu último livro de poesía: “Cuando todo calla” (2014), (XIII Premio Casa de América de Poesia Americana). A sua vida e os seus viagens tem sido o material principal da sua obra, fatos como ter morado e participado da década de 60 em Greenwich Village de Nova Iorque, como artista plástico, ou o fato de ter ficado calado durante sete anos no silencio da vida monástica da ordem religiosa Trapense onde começou escrever são alguns dos marcos da sua vida.

Livro em português:

Margens. Cosmorama Ediçoes, Portugal. 2015

 

4.

 

de

vento de já nunca

agito anelos

 

menino

sem meninice

este vasto baldio

de ser homem

 

 

 

6.

 

cerro o punho

e golpeio,

 

cerro o punho,

 

para não ver a

mão vazia

 

 

 

7.

 

fios do

medo

fiando pontes

para sempre atrás

 

para tanto inútil

 

como uma alba

sem o seu rubro preço

 

 

 

9.

 

algo mais branco

que a verdade

 

algo como um gemido

enrubescendo

o amanhecer

 

ou ainda mais:

 

como uma dor calada

que também os cegos oiçam

 

 

11.

 

brisa branca

o ir sem regresso

 

vermelho sal

dilatando-se

noite

 

sede de margens,

 

uma estilha ou a sílaba

de um nome

 

̶ pedimos ao amor

que seja ponte sobre

barrancos, ao amor,

abismo que nos corrói ̶

 

 

 

15.

 

há alcantis de silêncio

na

litania do latejo

 

esteira vazia,

 

dívida

do que devia ter sido

 

e tudo é como o brinquedo

que nunca tive

 

̶ o que finjo ter ̶

 

 

 

19.

 

alba do assombro

 

toda íris,

como a noite

 

 

 

22.

 

o sol põe-se por trás da janela

da cozinha

 

o chá está quase pronto

 

 

 

31.

 

do sopro da tua luz

a minha sombra

e

a acesa tatuagem

da tua ida:

 

nervuras

abrindo-se nos meus muros

 

portas

rubramente estreitas

 

̶ o que morre ao passar é o que passa ̶

 

 

 

35.

 

perto

 

muito perto

um cego reflecte-se

na minha lágrima calada

 

perto

 

mais perto

ponho a minha lágrima nos seus olhos

 

para que possamos ver

 

 

 

44.

 

como

um cego chamando luz

ao trovão

 

dizer-me

o que o silêncio nomeia

 

 

 

46.

 

farrapo que alguém beija

e fá-lo um todo

 

dói tanto o sonhar

que às vezes se parte, às vezes

se abre vida

 

 

 

60.

 

funâmbulo coxo

sobre

a corda

do grito

 

nu

como preso a

nada

 

ou ferido

como liberto

de tudo

 

̶ brasa branca

os ossos do homem ̶

 

 

 

69.

 

 

carne viva do

pertencer-te

o não

pertencer

 

molhe de chuvas

a mão aberta

 

 

 

70.

 

dádivas verdes os teus olhos

reverberando

chuvas

 

não são águas,

 

é ruptura vertendo prados

o rubro

do teu balançar azuis

 

o órfão do teu ser filho

 

 

 

1.

 

bosque cortado

 

grita,

porém não sabe que grita

 

como o anjo de mármore

sobre o túmulo de uma criança

 

 

 

5.

 

cordeiro ferido

bebendo despedidas nas margens

de cada náufrago

 

todos necessitam

de em quem morrer

 

 

 

8.

 

tudo foi como sempre:

abri as mãos e estavas

 

e tudo foi como sempre

pela única vez

 

 

 

11.

 

e do outro lado de tudo nada

ou, talvez, o reflexo deste mesmo lado:

nada.

 

os espelhos cortam a vida

 

 

 

17.

 

e continuo deste lado

da janela

 

aqui, onde se estilhaçam pássaros

contra uma alba de vidro

 

 

 

18.

 

como ressoando desde

um violoncelo

mas não de cordas,

 

de gumes.

 

cada homem

elege os seus medos

 

 

 

35.

 

baterei toda a noite

no tambor da noite,

 

toda a vida na porta

da vida

até que abra

 

até sair de tanto fora

 

 

 

40.

 

é tirar crosta

atrás de crosta em cima de nunca

sangrar

 

é arranhar espelhos

com as unhas roídas

 

porquê crer-me mais o meu sangue

que os meus medos?

 

 

 

43.

 

vitral de visões

as paredes de um copo vazio

 

quando a noite é luz

fechar os olhos é a ponte

 

 

 

2.

 

batendo à porta

da casa vazia

 

não para que me abram,

para me ouvir chamado

 

 

5.

 

Os arautos do despojo

não levam nada: clarificam tudo

 

 

 

6.

 

tenho as mãos mortas

de mendigar perdão pela vida

 

de tão culpável já sou vítima

 

 

 

9.

 

não passaram ainda os deuses:

passar é o seu advento

 

é o homem quem faz casa

em cada passo que devia ser esquecimento

 

 

 

12.

 

no fundo não há raízes,

 

há o arrancado

 

 

 

15.

 

não basta cavar esperas,

 

há que abrir-se cova

onde um deus se lance

 

 

 

19.

 

peço uma trégua a este polir espelhos

por detrás de cada íris,

 

peço não ser já este não ser em carne própria

 

 

 

27.

 

há um deus que se ola

na cegueira de cada homem.

 

há um destino de continuar repetindo a única vez,

de percorrer o mesmo umbral

onde me sentei desde menino

a ver cegar deus

 

 

 

28.

 

não basta abrir os olhos

há que abrir o olhado

tirar as ligaduras

ao peito de ninguém

 

 

 

30.

 

há espelhos que são como homens:

abrem-se partindo-se

 

tão poucos morrem de vida

 

 

 

37.

 

caminho de chuvas

partindo-se no asfalto

 

sou o desejo de deus morrendo carne,

sou carne desejando-se deus

 

 

 

3.

 

viver como debaixo do mar

onde respirar é tragar a morte

 

ou como procurando

um filho perdido na multidão,

 

sem saber onde está,

sem saber se nasceu

 

 

 

 

7.

 

frente ao espelho de cada dia

com os olhos cravados nos cravos dos olhos:

 

jazo fechado em dois

como um calhau partido

 

 

 

11.

 

como ver o reflexo no copo

de que se bebe,

 

como ver-se feito de sede:

da sede de nos reflectirmos

 

 

 

18.

 

como dever metade pagando tudo:

 

já saldei todos as dádivas

já só devo o ter pago

 

 

 

 

20.

 

mulheres ajoelhadas tecem

com os seus medos

um manto para o deus desnudo.

 

com palavras levanto o muro

contra aquilo que volta como eco

tanto silêncio teu

 

 

 

24.

 

à traição mutilei o milagre

até deixar só estátuas:

 

em cada vida morre-se-lhe um filho para deus

 

 

 

31.

 

como um mendigo que desse

uma moeda a cada homem que passa

 

ou como cada vida

acendendo com o seu círio

a noite escura de deus

 

 

 

32.

 

vesti-me para o banquete

e deram-me a mondar os meus ossos

 

despi-me para

as bodas

e revestiram-me de escarchas

 

de que avareza sou o preço?

 

 

 

Dois Manequins

 

A minha mãe e o meu pai: dois manequins, um de espuma voando na praia, o outro de neve caindo sobre um livro de contos (de ambos de carvão a sombra). Os dois sob a chuva, a que me lavou deles, mas ao alto, onde a chuva é ainda lago, ao alto, onde as crianças não têm pé.

 

 

 

Lua sobre as Ondas

 

Há uma lua sobre as ondas e no vento um canto que ninguém canta. Sobre a praia, com os olhos vendados, seis crianças caminham carregando um ataúde aberto. Caminham mar adentro ao ritmo do canto que ninguém canta.
Sobre as ondas balança o féretro como um berço vazio enquanto se afogam sob as águas os gritos que ninguém escuta.
Há uma lua sobre as ondas.

 

 

 

Margens

 

Um menino correndo por um pontão debaixo da chuva.

A chuva cessa, o pontão termina.

 

Salta! (Não morras margem, não sejas sulco na fronte dos homens).

 

 

De Crianças e Homens

 

Há homens que são mais que homens, são a custódia da criança que brinca com a vida desses homens; há outros que são menos que a vida dos homens, são a casca do ataúde de cada criança morta.

 

 

 

Salmo

 

O boxeador queria ter sido bailarino.

 

Ele nunca o disse; os outros diziam: tinha que ter sido guarda-florestal, monge, ou ter viajado para outro lugar (mas não diziam isso, diziam outra coisa, não boxeador).

 

Golpeava, golpeava… golpeou até cair sobre a lona. Ali ̶ agora ̶ disse uma palavra (a da extrema solidão quando é a solidão do extremo), essa que se alguém a tivesse escutado teria sido outra, não a única, a que foi.

 

Para dizê-la nunca foi bailarino.

 

(Outros mortos, por sua vez, não dizem o seu silêncio: amordaça-o a litania dos que rezam aos seus pés).

 

 

 

Ideograma

 

Aquilo que se vai entregar no instante em que se subtrai é o que vai esvaziando o poeta, o que o cega no ideograma do relâmpago; a partida que procura dizer nas páginas de cinza onde se volta a abrir, onde sustém a respiração para que não se apague nem voe o que quem sabe e talvez se lhe vá entregar.

 

 

 

Alba

 

quieto,

 

como não se movendo

para que o sangue não transborde

da boca

 

quieto,

 

como sentindo um pássaro

ferido

na palma da mão

 

sem fechar a mão

sem abrir os olhos.

 

há uma fé que é absoluta:

 

uma fé sem esperança.

 

 

 

Gravado nos Escombros

 

 

fica sempre

um rastro de tudo

o que passa,

 

uma chávena de louça

com a sua asa quebrada,

 

um lençol puído

onde se hospedaram

os sonhos

em que se sustentou a vida;

 

o esqueleto de

uma casa

ou um túmulo derrubado.

 

toda a ruína tem algo de templo,

 

todo o homem

é o resto de um suicídio

a gota no cálice

que não bebemos até vazio.

 

 

 

Há Cães que Morrem da Morte do seu Dono

 

Há cães

que morrem da morte do seu dono

 

corpos que não fazem o amor,

fazem o medo

 

que não se agitam,

tremem.

 

e há homens

nos quais deus morre

como uma gota de lacre

sobre o peito

de um torso de mármore,

 

são os que choram quando crêem

estar falando,

ou gritam sonhando, mas com a alba

esquecem o grito

com que atearam a noite.

 

há homens nos quais deus geme

por não encontrar um homem

onde morrer de carne,

 

mas não chora como quem o faz só,

chora como quem chora abraçado a uma criança.

 

 

 

Na Noite sobre a Praia

 

há luas

que pintam de cal as noites,

 

noites em que o silêncio

arde

enquanto o vento

faz girar

cinzas na sua roda sem destino.

 

restava fazer-se casa,

ordenar os escombros ou cavar

nas cinzas

a impossível madrigoa

 

morder os lábios

para provar o gume

dos próprios dentes

 

ou escolher a mansidão

de fechar os olhos

e esperar

 

como um cavalo na noite

tombado

sobre a praia,

 

um cavalo caído

com a pata quebrada.

 

 

 

Fogo na Água

 

morre fogo o lenho

que cresceu bebendo águas.

 

sede em chamas

 

este queimar-nos as mãos

a tocha

com que alumiamos o caminho

em que ninguém anda,

 

ou quando não se tem mais

que os dentes

para abraçar o corpo amado

 

e apenas algumas perguntas

para desmentir

verdades.

 

água para o fogo

fogo na água

 

sede nas chamas este estar vivo

inutilmente pleno

como una flor

que ninguém arranca.

 

 

 

Outro Início, Outra Música

 

nada responde a nada

quando tudo fala.

 

há que sonhar

um sonho sem vozes,

 

voltar a cantar escutando.

 

deixar correr uma lágrima

com o rosto

debaixo da chuva

 

um silêncio

que seja anúncio, um anúncio

que o faça nascer,

 

uma alba na palavra alba.

 

 

 

Ponto de Fuga

 

tudo se apagará no tempo

 

como um punhado

de neve

desaparecendo entre os dedos

e o olhar

 

ou o ponto final de um poema

que ninguém tenha

escutado.

 

tudo se perderá no tempo

 

como um papagaio de papel

desprendido

da infância

 

como um azul silencioso

que revelara com a sua lonjura

o encontro de nos perdermos.

 

 

 

O que o Abraço Abarca

 

goteja o grifo

e algo da pedra vai-se na água,

 

morre

como se fosse humana.

 

procuramos reter aquilo que no outro

se vai indo,

o que às vezes se desmorona

 

mas é apenas a despedida

o que o abraço abarca.

 

 

 

Marcas

 

nalguma lembrança

(mais longínqua que a memória e por isso

inolvidável)

abre-se uma rosa.

 

depois a vida

 

o sol sobre as cinzas, a sua piedade,

a sua mentira

e o pão que abandonamos trincado:

 

o vazio de cada dia

como a marca de um preso no muro

da sua esperança.

 

vida a vida, pétala a pétala,

nunca, jamais, a rosa.

 

 

 

Faz apenas Dias

 

faz apenas dias morreu o meu pai,

faz apenas tanto.

 

caiu sem peso,

como as pálpebras ao chegar

a noite ou uma folha

quando o vento não arranca, embala.

 

hoje não é como outras chuvas

hoje chove pela primeira vez

sobre o mármore do seu túmulo.

 

debaixo de cada chuva

poderia ser eu quem jaz, agora sei-o,

agora que morri noutro.

 

 

 

Vendo Passar as Sombras

 

desde crianças, brincando a apanhar

pombas,

 

sempre, até ao último

 

até ao ancião

com a vida apoiada a uma parede

vendo passar as sombras

 

procurando aquilo que nos encontra

em cada coisa

que esquecemos.

 

nem toda a sombra é sombra

de algo,

o insuportável parece sempre algo

nem que seja nada.

 

 

 

A esta Hora da Vida

 

do outro lado do vidro tudo dorme,

 

dentro também é escuro, escuro

e vazio

 

como numa casa

abandonada

que não se acabou de construir,

 

como a noite de alguém

nunca a mera sombra.

 

no coração de outra noite

palpei o meu peito

e o seu peso de séculos e era apenas

um buraco,

 

uma casa desabitada

dessas que morrem antes de se derrubar

 

a esta hora da vida

é do ausente

que nascem as sombras,

 

é em quem não fui

onde sempre serei de ninguém.

 

 

 

Um Pedaço de Fome, um Copo de Água

 

fiel ao humano,

 

ao tamanho do que os braços,

embalam

à alegria

do que nas mãos cabe,

 

à calada esperança

que é não apertar os lábios.

 

fiel a um copo de água

e ao pedaço de fome

que outro corpo nos traz,

 

fiel sorvo a sorvo, fome a fome.

 

fiel ao pudor de apenas um gesto,

apenas o abismo

do outro

quando o silêncio

cala a pele que nos separa.

 

fiel ao limite de morrer homem,

de ter abraçado o vazio

que esse mesmo abraço preenchia.

 

 

 

Terra Nua

 

há dias em que nomear não chega

 

descalço, parti para sentir a terra

as folhas

a madrugada fria.

 

debaixo de uma árvore inclinada sob a passagem

de tantos ventos

 

(vazio e resseco

de se retorcer nos seus ramos)

soube-me vivo:

 

sacudi a escarcha, o mistério, o vazio

e não consegui senão cair, abraçar

o tronco

e chorar tanta beleza

misturando o meu sal

com a terra nua.

 

ao cair a tarde,

a derradeira, silenciaremos as palavras

com que ensartámos

os pedaços da vida;

 

quando a noite chegar

e nos devolver o silêncio

escutaremos por fim o latejo.

 

 

 

Em Plena Noite

 

Também em plena noite

a neve

se derrete branca

 

e a chuva

cai

sem perder a sua transparência.

 

É ela, a noite,

a que nos livra dos reflexos,

 

a que nos expande

as pupilas.

 

O que procura o cego com a sua bengala

é a luz, não o caminho.

 

 

 

Uma vez Mais

 

Depois do relâmpago é outra

a mesma noite:

 

é que tudo é o que é e também

uma vez mais.

 

 

 

O Anúncio

 

Raro relâmpago do

instante,

 

brilha e cega sobre

um prato branco e vazio.

 

Há que acolher o fulgor da ausência,

 

reflectir

a dádiva do que não está

em cada coisa que criamos.

 

 

 

Quietude

 

Ao entardecer,

quando tudo se aquieta, lanço encosta abaixo

um calhau.

 

Caminho do abandono;

oferenda de não escolher os passos.

 

 

 

Formas Brancas

 

Num baldio,

sobre o pó e a

folhada

 

um pássaro moribundo

aquieta as suas asas.

 

Uma nuvem, impassível,

brinca

com as suas formas brancas.

 

No final também a minha boca se encherá

de terra,

 

no final beija-se sempre

aquilo de que desertámos.

 

 

Transparência

 

Noite sem céu

e o mais alto

é o nascer da chuva.

 

Sem um antes

nem um depois,

no seu puro agora

 

cai a chuva;

 

cai sobre o mundo

e algo,

algo que não a dúvida ou a certeza,

transparece sobre as suas águas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Impossível

 

 

 

Chove sobre

o silêncio de um prato vazio,

 

chove

e transborda-se chuva.

 

Há que derramar-se até

ao impossível de si próprio:

 

a ferida sem se dizer sangue,

a alma sem se saber alma.

 

 

 

Leitos

 

Sopra o vento

sobre a escuridão deste

inverno;

 

sopra e passa como um rio

que ao passar criasse

ele próprio as suas margens.

 

Há sempre alguém que

se ajoelha

na noite,

 

alguém em quem a espera

se abre alma na carne.

 

 

 

Ária

 

É noite, é frio

 

e na distância

o canto de uma mulher

parece embalar a vida.

 

A voz, não o silêncio,

é a nudez das palavras.

 

 

 

Instante

 

Umas folhas,

umas poucas folhas sacudidas

pelo vento.

 

Um tremor no sombrio bosque,

um clarão de vida,

um instante de menino.

 

 

 

Poética

 

Um relâmpago,

na noite que dilata,

alumbra o seu próprio apagar-se.

 

 

 

Anúncio

 

Entardece outono,

 

vento

e, de quando em quando, uma folha sulca

a minha janela;

 

de quando em quando, algo se anuncia

na indecisa beleza de

cada folha que cai.

 

 

 

Resplendor

 

Já noite,

caminhando,

 

vi o instante de um relâmpago

sobre a poça de uma rua,

 

cerrei os olhos

e, branca e imensa, e ao mesmo tempo serena,

ateava-se uma alba.

 

 

 

(Confissão

 

O poema, aquele a que anseio,

a que aspiro,

é o que possa ler-se em voz alta sem que nada se ouça.

 

É esse impossível o que começo a cada vez,

é a partir dessa quimera

que escrevo e apago).

 

 

 

Amanhece e Calo

 

Amanhece e

calo;

 

calo todo o medo, calo qualquer

presságio,

 

procuro uma alba virgem de mim,

procuro o nascer da luz,

não o seu iluminar-me.

 

 

 

Só no Final

 

As duas margens

são sempre uma, mas sabemo-lo só no final,

depois, depois de naufragar entre elas.

 

 

 

Na Pele

 

Na lonjura, fora,

 

cai

uma chuva

que apenas cheiro, uma chuva

que ainda não chegou.

 

Aqui

Na pele, como numa página

em branco,

espero que a água, a chuva,

aquilo que vive e palpita,

me seja alguma vez revelado.

 

 

 

Quebrar

 

No fracasso da busca

revela-se o que nos encontra:

 

aquilo que pede para ser acolhido

no vazio do que nos foi arrancando.

 

 

 

Neve ao Vento

 

Flocos de neve ao vento,

caem desde o seu agora,

caem sobre o seu aqui.

 

Quando não há ontem, quando

hoje é olvido,

não há com quê imaginar amanhãs:

há apenas o que sempre há,

há este estar nascendo.

 

 

 

As pétalas

 

As pétalas, não os espinhos,

é o que nos dói da rosa.

 

Fere

tanto nascer-se, fere tanta beleza

abrindo-se alma na carne.

 

 

 

Crer

 

Imperceptível,

 

o vento

acaricia o arvoredo que roça,

desprende as folhas em que se solta.

 

 

Crer, orar, é palpitar o nascer

em cada filamento que vai morrendo.

 

 

 

Atalho

 

Entre o ondular das

algas, um pássaro morto é levado pelo rio;

 

um pássaro ou a vida:

essa derrota abraçada.

 

 

 

Alto, Longe

 

Alto,

longe, por apenas

um instante

a nervura de um relâmpago

incendeia de branco os meus olhos,

 

depois tudo regressa à escuridão,

mas já não são apenas sombras:

são vestígios do perdido.

 

 

 

Neste Vale

 

A noite

já se escutam grilos

e agora é o

vento

aquilo que afasta ou acerca o tremer

do que se inclina.

 

Hoje, neste vale,

debaixo desta lua,

soube que o vento não passa,

soube que está sempre a chegar.

 

 

 

Oferenda

 

Quando alguma vez

chegar a estar vazio

fecharei a porta e deitarei fora

a chave:

 

sim,

tinha que deitar-se fora

como uma oferenda sem retorno,

como um presente que ninguém aceite.

 

 

 

Depois de Tanto

 

Depois, depois de tanto,

perde-se o medo

ao renunciar ao que jamais se teve:

 

sou a minha vitória sobre o que perdi,

sou o que já não espero.

 

 

 

Abrir as Mãos

 

Conhecermo-nos é uma entrega,

não um saber-se,

 

é soltarmo-nos

e descobrir que não nos afundámos ,

que estivemos sempre

sustidos.

 

 

 

Ousadia

 

Ver não é abrir os olhos,

é atirar para o lado a bengala branca:

 

ousar andar

sobre o saber-se perdido.

 

 

 

 

Mais Fundo

 

Há vidas

cuja alma

se abre

mais fundo

do que onde essas vidas latejam,

abre-se como um relâmpago

sem céu nem trovão,

 

como uma ferida sem peito

 

ou um abismo

onde a beleza é alba.

 

 

 

VI

 

Há uma fenda

na palavra

fenda,

 

um rasgo onde

cada palavra silencia,

onde todo o silêncio cria;

é o que no dizer é alento,

não de som,

é onde em cada palavra

nos escutamos revelados.

 

 

 

VII

 

Para o alto, para a luz

distanciam-se os ramos,

 

no fundo,

na obscura terra,

as raízes encontram-se,

a sede entrelaça-as.

 

 

 

XXVIII

 

O dia não é apenas dia

também é

noite acesa,

sombra transparente.

 

É porque não tem sombras

que não vemos o que o vazio acende,

que não vislumbramos

o que nos resta

quando não nos resta nada.

 

 

 

 

XXIX

 

Só do

que se arranca do todo

nasce o que nunca esteve

 

(da semente que guardamos

cresce apenas

o que já fomos).

 

 

 

 

XXXIII

 

Também o silêncio

é vestígio,

vestígio e sinal

rumo ao sem nome

 

rumo ao que apenas

se escuta

na renúncia

a nomeá-lo.

 

 

 

 

XLI

 

Sem cerros nem arvoredos

o vento voa ancho

a calma do vale.

 

Maior que esperar algo

é o não nomear a espera:

esse não saber

o que vem,

esse deixar que nos nomeie.

 

 

 

 

XLIV

 

Há cortes

que são de amor

que nos abrem um dentro;

 

há cortes,

esses mesmos cortes,

que nos salvam de nós:

que nos ofertam a sua exterioridade.

 

 

 

 

XLVI

 

Todo o rio torna

ao seu leito

e o pó à terra.

 

Não é em direcção ao alto

que se desdobram as asas:

voar voa-se

nas funduras

que as raízes cavaram.

 

 

 

 

XLVII

 

Há sempre algo

que não chega a tornar-se carne:

não é que nos falte

é que nos excede.

 

A vida não cabe na vida

por isso sempre,

em algum lugar, ela parte-se-nos.

 

 

 

 

XLIX

 

No final não haverá final

haverá a entrega:

 

esse salto

sem berma de onde o dar,

esse saltar para o vazio

do qual uma vez

chegámos,

 

essa entrega

para a qual nos fomos

esvaziando.